A evidência

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Figura no livro Física Divertida, de Carlos Fiolhais

Quem quiser ler sobre Bartolomeu Gusmão poderá fazê-lo nestes breves textos, aqui ou aqui. Quem quiser ouvir poderá fazê-lo num pequeno filme, 4 minutos e quinze segundos, aqui.

Para os que considerarão reaccionário um tipo que se desgosta com esta mania das gerações se procurarem eternizar através de uma toponímia cronocentrada deixo uma pequena história: a primeira vez que fui a Joanesburgo, em 1994, aterrei no aeroporto Jan Smuts. Passados anos lá voltei, e várias vezes, e aterrei no aeroporto de JHB. Anos depois de lá voei, partindo do aeroporto Oliver Tambo. As pistas dos aviões estavam sempre no mesmo sítio.

Um país centeno

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O ministro das finanças, e o seu secretário de estado, fizeram uma lei de propósito para um indivíduo e debateram com ele (e/ou seus representantes) o perfil/conteúdo dessa lei (a velha máxima “à vontade do freguês”). Essa é a questão, que obrigaria à expulsão de ambos de qualquer cargo político ou de administração pública. Mas os patetas (e os gabirus especializados em enganar os patetas) vão discutindo se ele, o ministro, mentiu ou não, se a mentira é relevante ou não, como se fosse isso o relevante… Entretanto acabou a semana, veio a jornada da bola, na segunda-feira os patetas (e os gabirus) irão falar de Trump e isso.

Um país para Centenos, mesmo. Ou melhor, um país centeno.

Cantores românticos

Há mais de 20 anos vivi no interior do Cabo Delgado. Quando, por razões logísticas, aportava em Pemba abancava no bar Viking. Naquele clima de empapar qualquer europeu recém-chegado a arte era cruzar o mata-bicho: nas alvoradas ovos, chouriços de conserva, mais batatas (quando o navio as havia trazido à cidade) fritas e várias Castles, por vezes até já Famous. Aprendi gamão com o John, algumas princesas locais sentavam-se à mesa, connosco bebericando, escandinavas e também escandinavos cooperantes (eram então ali imensos) se seguiam, um ou outro raro patrício surgia para saudar. Depois ia ao correio (então ainda não havia internet) mas nunca tinha cartas, comprava conservas, deixava correr o dia até às noites de Wimbe e no dia seguinte seguia para o “mato”, a aldeia lá bem para além de Montepuez, mochila às costas, machimbombo ou alguma boleia. Num desses mata-bichos que duravam até aquela hora do fim da tarde, ou mesmo à madrugada, decerto que já um bocado trôpego, pedi ao Bagorro que me gravasse uma k7 (sim, daquelas de fita) com esta canção. Eu nunca a ouvira, nem mesmo atentara em Roberto Carlos, o piroso. Mas ali, então, naquela era moçambicana, ele era muito ouvido. Ao balcão do bar esta tocava várias vezes ao dia. Gravou-ma. Calcorreei, naquele calor húmido, dali ao Hotel Cabo Delgado até à baixa da cidade, aquela escadaria abaixo para depois escadaria acima, aos correios e enviei a k7, só assim, com o apenas “O Portão”, àquela que havia sido minha namorada. E que, depois, voltou a sê-lo. E mulher. E mãe da minha filha. Muito tempo depois, um ano talvez, perguntei-lhe se a havia recebido. Que sim, disse-me, e que tinha achado que eu devia estar meio maluco. E bêbedo, acrescentou. Ciente.

Nunca mais resmunguei com Roberto Carlos – no que aliás sigo os canónicos grandes daquilo da MPB, sempre cultores do “Rei”. E ainda hoje, já mesmo voltado, pois “onde andei não deu para ficar“, eu próprio “amarelado pelo tempo“, trauteio este “Portão” em busca do nunca tido meu “cachorro (que) sorriu latindo“, e de uns quaisquer “braços abertos” pois “voltei para as coisas que aqui deixeiagora para ficarporque aqui é meu lugar“.

Vem-me esta memória à cabeça quando vejo espalhada uma foto do nosso ministro da cultura – mui fraca figura, é sabido – ministrando, exultante, no concerto do Tony Carreira, o nosso cançonetista romântico. E partilho-a, à historieta, para que fique claro: não é cagança elitista a minha. É mesmo desprezo por tamanha demagogia. Imenso.

A influência do cherne

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“Abandono escolar aumentou porque desemprego juvenil diminuiu”

                                                                                                          António Costa

 

Em plena Assembleia da República, o primeiro-Ministro de Portugal  justificou desta maneira e sem réstia de vergonha, o aumento de 0,3% no abandono precoce da escola em 2016, não querendo perceber o quão grave é a questão. Depois atirou com areia para os olhos dos papalvos, dizendo que o Governo vai lançar o programa Qualifica, “para completar a qualificação, certificação e formação”. Deve ser um copy-paste do programa do seu antigo amigo e chefe, o “Novas Oportunidades”, já que a merda da escolinha é, como se sabe, uma mera formalidade, uma perda de tempo.

Nos idos anos 70 quando se queria estabelecer  um nexo causal disparatado, dizia-se que um qualquer acontecimento se devia à influência do cherne no eclipse da lua.

 

 

Lixo de 1ª!!!

A Política e a Economia não são coisas para o cidadão comum. E ninguém melhor  para provar a incapacidade popular para matérias desta dificuldade que Sua Excelência o Senhor Presidente da República Portuguesa.

Apregoando o bom estado da chafarica a que preside, aproveitou S.E. para antecipar o revisto rating para o país de uma das mais conhecidas agências de notação financeira – a Fitch, passe-se a publicidade gratuita. Marcelo Rebelo de Sousa vestiu a sua melhor  e saudosa farpela de comentador, superando facilmente o inefável Marques Mendes e , num arriscado passe de adivinhação, arruma com a própria bruxa-taróloga Maya e ainda, transbordando de optimismo, ultrapassa António Costa na campanha publicitária sobre o êxito nacional.

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Diz-nos assim o Presidente, de quem sou, de resto, apreciador:

“… A segunda boa notícia é que a agência Fitch

mantém o rating de Portugal, à espera das decisões

das instituições europeias…”

Ora o famigerado rating da Fitch, deixa o país onde já estava, ou seja, no lixo. Que bom.

 

O Funeral de Soares (2)

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Não vale comparar com o funeral de Sá Carneiro, dado o momento histórico e a tragédia que o provocou. Mas talvez não seja descabido compará-lo com o funeral de Cunhal, morto já na reforma, em pleno XXI, retirado há anos, e então rodeado por uma gigantesca mole. Sim, já aqui botei vários textos sobre o meu espanto e desagrado com a perenidade do ressentimento histórico de alguns/tantos com Soares. Mas não deixa de ser sociologicamente significativo o apartar do “povo de Lisboa” do seu cortejo fúnebre (“dezenas” de participantes refere, melífluo, o jornal Diário de Notícias), pequenos núcleos ao longo das ruas, nem o simbólico Largo do Rato se apinhou (apesar do hiperbólico “mar de gente” que o repórter televisivo anuncia). Apesar da cerimónia ter até sido publicitada por ministra (que absurdo, caramba), pela própria câmara municipal e pela constante cobertura televisiva nos últimos dias.

A unanimidade em seu torno ou, pelo menos, a abrangência do apreço popular talvez seja menor do que o poder (político, jornalístico) pensa. Tem algum significado político? Com toda a certeza. Mas esta proclamada unanimidade (sublinhada na tv pelo o que os repórteres vão dizendo, como se banda sonora do funeral, pungentes de superficialidade propagandística) vai ecoar nos próximos dias devido às obrigações do luto. Mas de facto, mesmo de facto, o “povo de Lisboa”, essa entidade mítica desde Fernão Lopes, virou calmamente, e sem acinte, pois sem incidentes, as costas a este funeral. À democracia? Quero não o crer. A Soares? Talvez um pouco. Aos seus? Espero bem que sim.

Em rodapé: Costa mandou uma mensagem a ser escutada no ecrã gigante. Quis-se fazer presente. Desrespeitando o seu governo, que lhe preenche as funções aquando ausente. Assim desrespeitando o funeral de Estado. E o falecido. Pois, como é óbvio com este destrambelhamento protocolar, para ele só ele conta. No seu fim político veremos quanto.

O funeral de Soares

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Como não há nada para discutir no mundo tenho o FB carregado dos “novos ignorantes” (alguns figuras públicas) a debaterem se Costa deverá ou não interromper uma viagem oficial à Índia para assistir ao funeral de Soares. Certo, se o PM fosse p. ex. Passos Coelho e não viesse ao funeral os socialistas (e os comunistas) lançar-lhe-iam um opróbrio. Mas seriam estúpidos. Como agora quem discute isso. Pois até eu, que não sou jurista, sei procurar isto: Lei Orgânica do XXI Governo (Decreto-Lei n.º 251-A/2015 de 17 de dezembro) – Artigo 7.º / Ausências e impedimentos do Primeiro-Ministro: O Primeiro-Ministro, salvo sua indicação em contrário, é substituído na sua ausência ou impedimento pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros ou por ministro que não esteja ausente ou impedido, de acordo com a ordem estabelecida no artigo 2.º, sendo a substituição comunicada ao Presidente da República, nos termos do n.º 1 do artigo 185.º da Constituição.

É assim. E por isso o Primeiro-Ministro estará presente no funeral do ex-presidente. Quem não estará é o cidadão Costa, ausente do país. E onde está o cidadão Costa é irrelevante. Entenda-se, eu acho que este governo socratista deve ser combatido “rua a rua, prédio a prédio, flat a flat”. Acho-o abjecto. Mas andar a criticá-lo por isto é uma imbecilidade. Não uma “nova ignorância” mas sim uma intemporal ignorância.

Adenda: avisam-me que está instalada uma aparelhagem televisiva (ecrã gigante) para que a população possa escutar uma mensagem do primeiro-ministro António Costa durante o cerimonial fúnebre. Se isso é verdade toda a minha argumentação cai por terra, o PM e a sua “entourage” não têm qualquer noção do político, protocolar, administrativo e simbólico, tudo se resumirá ao seu ego político. Se assim for, se a sua vertigem egocêntrico se sobrepor àquele que o representa, esvaziando-lhe a função política, é óbvio que deveria ter tudo interrompido e vindo até cá. Será um erro. De mediocridade. Esperemos, nesta véspera, que assim não seja. Nem que seja, apenas, por respeito pelo(s) morto(s).

Obrigado Mário Soares?

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Por mais antipático que possa parecer discordo desta homenagem da Câmara Municipal de Lisboa. Que o Estado (a presidência da república, o governo) entenda honrar com funeral de Estado o antigo presidente, primeiro-ministro e ministro acho bem, é sua prerrogativa, e é muito saudável e apreciável – ainda que eu prefira a elegância daqueles célebres que na hora do fim avisam que a cerimónia de saída deverá ser privada.

Mas que uma câmara faça uma coisa destas, ainda para mais utilizando meios comerciais (o que nem sequer é a questão crucial), não é curial. Não é às câmaras que competem estes processos de sacralização laica (de “eternização” simbólica), de exaltação, dos vultos nacionais. Isto não passa de uma excitação, um atrevimento, um “em bicos-dos-pés” do presidente em exercício, uma intrusão nas funções simbólicas do Estado central.

Mais ainda, não creio que os funerais dos antigos chefes de Estado da democracia portuguesa, António Spínola e Francisco Costa Gomes, tenham sido alvo destas elaborações propagandísticas da câmara. Dirão que esses indivíduos tiveram peso diferente na história? Talvez, mas isso são interpretações que não competem à câmara municipal da capital. Posso crer até que, e meto as mãos que teclam no fogo, se a morte de Aníbal Cavaco Silva ou de António Ramalho Eanes (longe vão estes agoiros) acontecerem sob o alcaide Medina isso não provocará este “outdoorismo”.- ainda para mais num partido que deixou recentemente de assinalar aquela data de 25 de Novembro de 1975, congregadora dos esforços de Soares e de Eanes para um nunca-geringoncismo.

Soares e as independências africanas (aliás, descolonização) [2]

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[Santos, Machel, Soares em Moçambique. Fotografia de Rui Ochôa]

Um precioso texto no Observador, “O papel de Mário Soares na Descolonização”, assente numa “biografia autorizada” do político, “Mário Soares – Uma Vida” de Joaquim Vieira. Serve não só para melhor esclarecer o papel e as posições de Soares no processo das independências africanas como para vislumbrar a trapalhada que era então o poder português, o papel de Carvalho (caótico e imbecil, como sempre foi, antes e depois) naquilo, e a mitomania (prussiana, já agora) spinolista. Os detalhes de Lusaca, basto referidos neste artigo, foram-me assim, tal e qual, contados, ene vezes, em Maputo por pessoas muito próximas do poder – que referiam algo que não surge no artigo (nem no livro citado): Soares avançou em abraço para Machel tratando-o por “camarada” (termo em voga na altura) algo que o líder moçambicano, homem sagaz, cerceou, em forte abraço sem “camarada”. Mantendo assim a necessária distância negocial. Mas abordando com “camaradagem” Carvalho, este sentido-se “moçambicano” (pois nascido na colónia) e legítimo representante dos revoltosos.

Mas, e repito-me, o fundamental é o vislumbre sobre a situação de então, a desagregação de um poder colonial serôdio, anacrónico, e a impossibilidade pragmática de Lisboa determinar regras. O estupor colonial acabara, tarde e a más horas. Carvalho, na sua imbecilidade militante, só expressava o desarranjo que o anacronismo histórico implicava.

Soares e as independências africanas (aliás, descolonização)

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(Machel, Kaunda e Soares, Lusaca, 1974)

Um bom artigo no jornal “Sol” (e é bom que seja neste, insuspeito de “esquerdismo”). É francamente incrível a persistência em tanta gente da representação de Soares como um “traidor” “vendilhão da pátria” que “entregou as colónias” (de facto, nesse eixo ainda entendidas como legítimas e até naturais “províncias ultramarinas”). Os textos e comentários que li desde ontem – há festejos, imagens de garrafas de champanhe, insultos, pragas, gritos (naquela irritante mania de escrever em maiúsculas) – a propósito da morte de Soares mostram um pouco da violência da internet actual mas mostram muito mais: a mágoa de um universo de portugueses vítimas da história, de facto vítimas do tardo-colonialismo do Estado Novo. Soares ficou-lhes, a esses meus compatriotas, até porque algemados a uma pobre e ignorante visão da história que precisa de autores, da antropomorfização causal, não como o símbolo mas como o agente do necessário e justo fim dos colonialismo, para eles entendido como desnecessário, injusto e traição.

O artigo, ainda que curto, é bom, chega até a desmontar um dos mitos que dura desde então, e que vi repetido à exaustão durante décadas e imenso no último mês, o de que Soares anunciou que se dispararia sobre os colonos (e há outro mote constantemente repetido, um brasileiro que disse que Soares terá dito ainda antes do 25 de Abril que os “brancos deveriam ser atirados aos tubarões”). Não haverá muito a fazer, este envelhecido e traumatizado universo social nunca abandonará a sua visão e os seus mitos. Mas é bom que este artigo esteja aí – até pela dimensão, espantosa, do rugido “retornado” neste momento da morte deste líder democrático, que é necessário enquadrar. Que é, e digo-o para quem não acompanha esse universo aqui no FB, verdadeiramente pungente. E tétrico. Ou vice-versa