Bombardeamentos na Síria

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A propósito de toda esta guerra na Síria (e não só) e também dos bombardeamentos desta semana, o ataque com armas químicas (muito) provavelmente executado pelo governo sírio e o ataque americano de ontem, lembro-me de algumas figuras que no passado fizeram parte do meu quotidiano (de consumidor de notícias). E as quais me parece não terem sido substituídas. Dá-me a sensação de que alguma coisa mudou no mundo  …

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Pena de morte

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Quando me falam da pena de morte fazem-no sempre sob o mito do país de brandos costumes, pioneiro na sua abolição, precoce no fim da escravatura, amais lusotropicalismo, a lusofonia etc e tal. E sempre me lembro dos ignorantes eurodeputados do BE (com um pateta historiador à mistura) há bem pouco a darem lições a uns quaisquer orientais reclamando para os portugueses serem o “primeiro povo a abolir a pena de morte” (Portas, Matias e Tavares dixit). Agora vejo nas “redes sociais” mais uma série de patetas a partilhar um naco do “mito lusitano”: 150 anos da abolição da pena de morte em Portugal, comemorações decerto apoiadas pelo Estado, pelas universidades e pelos indignistas do costume.

Em Portugal a pena de morte foi (definitivamente?) abolida em 1976 – é uma “conquista de Abril”, ó “camaradas”. É motivo de comemoração? É. Será sempre. Mas fazê-lo agora é sem “número redondo” para a efeméride.

A Universidade na Ilha de Moçambique

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(Fotografia de Teresa Moreira de Carvalho)

A instalação de um pólo universitário na Ilha de Moçambique era um anseio muito antigo. Tanto para a formação da população daquela área como para que possa contribuir para a sustentabilidade da reabilitação da cidade Património Mundial. A minha primeira vez na Ilha foi há exactamente 20 anos, na comitiva de Federico Mayor, então nº 1 da UNESCO,e já se falava nisso. Nas décadas seguintes ouvi muitas intenções, externas e não só, de avançar essa realidade. Sempre esbarrando nas dificuldades, organizacionais, orçamentais, de recursos humanos disponíveis.

Hoje, 31.3.17, a UniLúrio inaugurou o seu pólo na Ilha, uma faculdade de ciências sociais e humanas. Continuando a sua política de descentralização sustentada do ensino superior no norte de Moçambique. Está a UniLúrio imensamente de parabéns. E os amantes da Ilha (mesmo este cá tão longe) rejubilam.

O trajar académico?

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Facto social total: é desse velho conceito, aprendido logo no início dos estudos de ciências sociais, que me lembro enquanto leio em vários murais do Facebook comentários sobre um comunicado de uma universidade moçambicana, proibindo inúmeras peças e modos de vestuário. Há quem critique o moralismo exacerbado que habita nesses propósitos, há quem apoie criticando os costumes desbragados da comunidade estudantil. E houve quem, com siso, notasse a escandalosa mediocridade formal do texto, inadmissível numa direcção universitária, denotativa de um “estado da arte”, esse sim algo degenerado. Disso tudo retiro três pontos, bem diversos: sobre a normatividade no ensino; sobre a diversidade; sobre a “cooperação”.

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A Anagrama, nos Olivais

francisco naia

25 anos depois voltei a viver no “bairro” (de facto, na freguesia) onde cresci, os Olivais. Que era zona até limítrofe de Lisboa quando foi construído nos anos 1960s mas que é agora, e desde há décadas, sociologicamente central na cidade, ladeando o aeroporto, incrustada entre Alvalade, Lumiar e a mais recente Parque das Nações, integrando esta expansão para oriente da malha urbana que extravasa os puros limites concelhios. É uma grande freguesia, mais de 30 mil habitantes, mais de 40 mil eleitores.

Neste  meu regresso tive duas impressões sobre o “bairro”, que talvez sejam mesmo só isso, impressões. O envelhecimento da população. E o empobrecimento. Por um lado porque os velhos de agora são os “novos pobres”, neste gradual apertão sobre as reformas. Mas também porque tendo sido os Olivais um projecto urbanístico de mescla sociológica as novas gerações dos segmentos de classe média aqui residentes partiram para outras áreas enquanto os descendentes dos segmentos de “classe média baixa” (agora diz-se assim) foram ficando.

Porventura isso não será toda a realidade. Talvez novos residentes, tanto os substitutos dos entretanto falecidos como os ocupando alguns escassos novos núcleos habitacionais, sejam menos visíveis. Pois os hábitos são diferentes, não só agora as pessoas têm menos filhos como os resguardam. A nossa geração cresceu à solta, esta tem “actividades”. E em assim sendo não há putos na rua. Por outro lado, e falando de adultos integrando essa mole heterogénea a que se chama “classe média” (que significa qualquer coisa como alfabetizados com consumo calórico suficiente para estarem capazes de trocar a visualização televisiva por uma qualquer outra actividade fora de casa), o que se passa é que no bairro pouco há para fazer, o que vai tornando invisíveis quaisquer novos nichos populacionais.

Pois há um enorme défice cultural, no sentido amplo da palavra. 30 e tal mil habitantes e não há um restaurante verdadeiramente apetitoso, não há um bar de referência (nem sem o ser), não há quiosques viçosos, os cafés são muito medíocres, com uma ou outra excepção. O pequeno comércio é decadente, o próprio centro comercial é pobre. Não há salas de espectáculos, nem galerias, nem livrarias. O associativismo é esparso e não só de antanho como sociologicamente muito marcado (o Sport Lisboa e Olivais é uma bandeira, a Sociedade Filarmónica União e Capricho Olivalense outra). Subsiste a antiga Bedeteca, agora uma biblioteca municipal, nitidamente castrada por falta de recursos. E há algumas actividades mais ou menos esparsas feitas pela Junta, também muito típicas de um modo de administração autárquica vinculada ao (necessário) assistencialismo e a esta moda “neo-rural”. Mais coisas existirão decerto, de que nunca ouvi falar, mas é verdade que o panorama é muito rarefeito. Certo que na vida de agora as pessoas se aglutinam nos centros comerciais, e se resguardam no espaço doméstico-electrónico.  Mas ainda assim angustia tamanha falta de diversidade no bairro.

Agora descobri que desde há algum tempo que funciona a Anagrama (com página no facebook) É, na falta de melhor termo, um “espaço”. Acolhe actividades muito diversas, oficinas (ateliers, workshops, escolham a língua) para crianças e jovens, aulas de ginásticas orientais e lavores, conferências e conversas temáticas, espectáculos musicais, poesia, apresentação de livros, teatro, e mais um punhado de alternativas, num programa cheio, enérgico. E acolhe também uma pequena livraria. É um sítio amigo, amigável, para fruição e convívio. Mas também de resistência, para que resistamos a esta nossa modorra envelhecedora. Ir, sorrir, debater, ouvir, aprender. Gostar e desgostar. Aqueles elixires, que nos vão fazendo aguentar.

A Anagrama está na Avenida de Berlim, 35c, naqueles prédios relativamente novos. Mesmo na divisória entre os Olivais Sul e os Olivais Norte. Para aí a um km e tal do centro comercial Vasco da Gama (que é ao fundo da avenida) e a outro do centro comercial dos Olivais e do metro, descendo a avenida cidade de Luanda. E ainda mais próxima da Junta de Freguesia (a qual, já agora, poderia ajudar na divulgação destas coisas).

Na sexta-feira, na sua pequena sala, haverá música. Gratuita ainda para mais. Eu irei lá. Nem que seja para escapar ao enésimo fim-de-tarde a bebericar no café em registo conversa passatempo. Ou no xópingue vasculhando em busca de promoções. Nem que seja por isso. Mas também por muito mais. Pelos tais elixires.

A medíocre superficialidade actual

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Não deixa de ser interessante recensear a quantidade de patetas que denuncia, agora no 2017, com ar sábio e ponderado, decerto que de mão sob o queixo, exactamente o mesmo rol de desgraças intelectuais que Malinowski elencava em 1930 – para os mais distraídos, em 1930 ainda não havia internet … (aliás, nem computadores. A TV, essa outra grande cloaca, acabara de ser inventada e ainda não emitia. E o cinema sonoro, essa alienante degenerescência artística, começara 3 anos antes).

José Capela

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Em 29 e 30 de Maio próximos decorrerá no Porto esta conferência internacional José Capela e a história de Moçambique, dedicada (obviamente) a uma reflexão sobre a vasta e fundamental obra do historiador. Até amanhã, 15 de Março, os interessados poderão enviar para o sítio da conferência as suas propostas de comunicação.

Para quem não conheça a sua obra e se interesse pela história de Moçambique e pela história africana de Portugal é fundamental lê-lo. Sobre o historiador José Capela (de seu verdadeiro nome José Soares Martins) fui deixando alguns textos no antigo blog (e em jornais moçambicanos).  Este, uma referência a um livro que acabara de publicar, agradou-lhe bastante e foi simpático o suficiente para me escrever “A sua referência ao livrinho é muito mais do que isso … é o enunciado da síntese interpretativa do que fiz como historiografia de Moçambique que melhor corresponde àquilo que pretendi significar“. Decerto um exagero, aquela coisa da simpatia, mas refiro-o aqui, evitando falsas modéstias, para lembrar: quem nunca leu Capela veja estas 3 pequenas páginas que podem ser uma antecâmara para a sua obra.

Quando Soares Martins morreu (em 2014) coloquei este texto, com 15 capas de livros (uma bibliografia incompleta).

Enfim, quem tenha interesse nesta área do saber que se apresse e inscreva-se. Será a melhor maneira de homenagear a memória do grande historiador. E do excelente homem.