Querer tudo

aaa5bc792e8190cc19363b6e45705d7c

(Adão e Eva no Jardim do Eden, Brueghel [Velho])

Acho que isto vem a propósito, nos dias que correm, ainda que complique um bocado o voluntarismo (utópico pois tendencialmente absolutizador) invectivador : “Porventura nada custou mais caro à humanidade que as suas utopias e entre elas, a utopia das utopias, a do Paraíso. Mas esse sonho de absoluto, fonte de horror, é o único que sem cessar extrai os homens da sua original inumanidade.” (Eduardo Lourenço, “O avesso do paraíso”, A Morte de Colombo. Metamorfose e Fim do Ocidente como Mito, Gradiva 2005 (o artigo é de 1992), p. 33).

Anúncios

Torremolinos e os estudantes

Torremolinos

Basta-me olhar para esta fotografia para comprovar que Torremolinos é um sítio ao qual espero nunca ir. Nem sempre foi assim. Em 1980 estava no 10º ano e preparava-me para no ano seguinte ir à minha viagem de finalistas (por alguma sobrevivência elas eram feitas no 11º ano e não no recém-introduzido 12º, sucessor dos patéticos anos cívicos e propedêuticos que o estado havia tentado). As viagens eram nas férias da Páscoa e dirigiam-se, já na altura, para Torremolinos. Ali congregavam-se os finalistas de inúmeras escolas secundárias, promovendo, segundo rezavam as crónicas dos que lá iam e assim despertando a nossa cobiça de mais-novos, afincados rituais de potlatch, enormes esbanjos de droga (ganzas acima de tudo), álcool (tudo o que se apanhasse), sexo (em versão bíblica para os mais sortudos, ou meros “melos” para os mais atados) e ainda algum rock (havia uma célebre discoteca, o Piper’s, onde todos se gabavam de ter entrado).

Mas esse meu (e não só) anseio falhou. Pois naquele 1980 o esbanjo foi tão caótico que uma malvada deputada do PS – cujo nome, por isto mesmo, nunca mais esqueci (Teresa Ambrósio) – cerceou as minhas ânsias, ao denunciar em plena Assembleia da República o desvairado estado a que as coisas haviam chegado. Tamanha bronca aquilo deu, entre a AR e a imprensa, que no ano seguinte não houve Torremolinos para ninguém …

Parece que agora, 37 anos depois, as coisas continuam na mesma. Querem opinar sobre o assunto? Façam-no, mas, sff, com alguma dimensão histórica. Caso contrário são apenas atoardas. Abaixo fica a pesquisa bibliográfica que fiz (via google):

PÁGINA INICIAL 3ª REPÚBLICA ASSEMBLEIA DA REPÚBLICA SÉRIE III LEGISLATURA SESSÃO LEGISLATIVA 04 NÚMERO 070 1980-06-12 PÁGINA 1159

 1160

II SÉRIE — NÚMERO 70

Requerimento

Ex.mo Sr. Presidente da Assembleia da República:

Nos termos regimentais, requeiro a V. Ex.a que sejam solicitados ao Ministério da Educação e Ciência e ao Ministério do Comércio e Turismo os resultados dos inquéritos levados a efeito por aqueles dois departamentos do Governo sobre os acontecimentos em Torremolinos ocorridos com estudantes das escolas secundárias durante o período das férias da Páscoa e por mim pedidos nesta Assembleia.

A Deputada do PS, Maria Teresa Ambrósio.

Curioso também este trecho de uma intervenção então feita pela deputada do PCP Rosa Represas sobre aqueles acontecimentos. Numa interpretação sui generis da maluqueira então acontecida em Torremolinos considerava que a culpa era da AD (então no governo). Presumo que os seus sucessores, fiéis à sempre louvável coerência ideológica do “Partido”, estejam hoje a invectivar o PS exactamente pela mesma causa. Aqui fica o excerto para os que não gostam de clicar:

” … Ao destacar o papel do movimento associativo como elemento fundamental de intervenção construtiva dos estudantes na resolução dos seus problemas, na realização de iniciativas culturais e de convívio, não quero deixar de fazer uma referência ainda que breve, aos recentes acontecimentos ocorridos em Torremolinos.

E quanto a isto, as versões, ainda que nalguns aspectos contraditórias, apontam para uma única conclusão: uma excursão de jovens, um momento de alegria « convívio, foi transformada por alguns deles em cenas de violência gratuita e vandalismo.

No fundo, aquilo que se passa quase diariamente em muitos liceus do País, repetiu-se em Espanha. As acções são semelhantes. Os seus autores identificam-se. Recorde-se os recentes acontecimentos nos Liceus de Oeiras e Amadora, onde alguns jovens, identificados com a AD e fazendo culto da violência, agrediram estudantes. Tal como em Portugal, estes elementos não se esqueceram de, em Espanha, deixar a sua marca, ou seja, as inscrições nazis, cruzes suásticas, etc.

E, se é necessário que seja feito um inquérito aos acontecimentos de Torremolinos dada a sua gravidade, também é preciso exigir que o Governo deixe de estar conivente, esteja atento e aja quando actos desta natureza se fazem sentir nos liceus.

É ainda necessário que se diga que os acontecimentos de Torremolinos dão uma imagem distorcida do que são os estudantes portugueses.

Um grupo restrito de estudantes, alguns dos quais identificados com a AD, não dão a imagem da grande maioria dos estudantes portugueses.

Tal como a não dá o pequeno grupo de arruaceiros que, em alguns dos nossos estabelecimentos de ensino, lança frequentemente a violência e a confusão.”

O estado dos cientistas

nif

Janto com um amigo, académico. Diz-me que prepara um projecto de investigação, que para a sua realização irá candidatar-se a um programa de financiamentos públicos chamado Horizonte 2020. Diz-me também que as questões burocráticas, de preenchimento da candidatura, são um pouco difíceis. As quais se tratam em portal electrónico próprio, no qual ele já se inscreveu.

Diz-me também que o acesso individual a este portal de financiamento de projectos de investigação científica se faz pelo Número de Identificação Fiscal de cada cientista candidato. Entenda-se, o acesso à actividade de cada um neste portal de financiamento à ciência faz-se pela apresentação do respectivo NIF.

Fico estupefacto. A individualidade do cientista (candidato a financiamento) não é expressa electronicamente pelo seu nome. Ou simbolizada por uma senha que tenha escolhido, num livre-arbítrio expressando o seu imaginário ou realidade (eu lembro, entre outras, as minhas nropa, balama, bolama, inhaca, já abandonadas). Ou, vá lá, o seu número de bilhete de identidade/cartão de cidadão, expressando a sua cidadania, afirmando o indivíduo cidadão com direitos e deveres desta república.

Já não é assim. A individualidade do cientista (candidato a financiamento) é mostrada à instituição financiadora da ciência através do seu número de pagador de impostos!

Muitos textos de muitos autores li referindo esta evolução do sistema capitalista/economia de mercado (há quem lhe chame pós-moderna, pós-industrial, pós-colonial, pós-etc.) que transforma (avilta, dizem) os cidadãos em meros consumidores, como factor de transmutação cultural/existencial necessário ou favorável à estabilidade e potenciação do modus vivendi. Mas neste caso o que vejo, porque o Estado (financiador da ciência) mo grita, é a redução do cidadão (cientista), e assim até a da ciência (dos cidadãos), a utente, pagador de impostos. E diante disto não há um “indignista”, um de prosápia de subversivo, um cientista social analítico, crítico, seja lá o que for, que se arrepie.

Vão felizes, assim utentes. Submersos neste véu ideológico. Dizia-se antes cúmplices. Ou mesmo colaboracionistas. E dançam, os cúmplices. Inscrevem-se, candidatam-se. Apresentando o NIF … Colaboram. E vão saracotear-se alhures.

Bombardeamentos na Síria

bombing

A propósito de toda esta guerra na Síria (e não só) e também dos bombardeamentos desta semana, o ataque com armas químicas (muito) provavelmente executado pelo governo sírio e o ataque americano de ontem, lembro-me de algumas figuras que no passado fizeram parte do meu quotidiano (de consumidor de notícias). E as quais me parece não terem sido substituídas. Dá-me a sensação de que alguma coisa mudou no mundo  …

waldheim

javier-perez-cuella

kofi_2297702b

boutros

Pena de morte

fuzilado 001

Quando me falam da pena de morte fazem-no sempre sob o mito do país de brandos costumes, pioneiro na sua abolição, precoce no fim da escravatura, amais lusotropicalismo, a lusofonia etc e tal. E sempre me lembro dos ignorantes eurodeputados do BE (com um pateta historiador à mistura) há bem pouco a darem lições a uns quaisquer orientais reclamando para os portugueses serem o “primeiro povo a abolir a pena de morte” (Portas, Matias e Tavares dixit). Agora vejo nas “redes sociais” mais uma série de patetas a partilhar um naco do “mito lusitano”: 150 anos da abolição da pena de morte em Portugal, comemorações decerto apoiadas pelo Estado, pelas universidades e pelos indignistas do costume.

Em Portugal a pena de morte foi (definitivamente?) abolida em 1976 – é uma “conquista de Abril”, ó “camaradas”. É motivo de comemoração? É. Será sempre. Mas fazê-lo agora é sem “número redondo” para a efeméride.

A Universidade na Ilha de Moçambique

lurionailha

(Fotografia de Teresa Moreira de Carvalho)

A instalação de um pólo universitário na Ilha de Moçambique era um anseio muito antigo. Tanto para a formação da população daquela área como para que possa contribuir para a sustentabilidade da reabilitação da cidade Património Mundial. A minha primeira vez na Ilha foi há exactamente 20 anos, na comitiva de Federico Mayor, então nº 1 da UNESCO,e já se falava nisso. Nas décadas seguintes ouvi muitas intenções, externas e não só, de avançar essa realidade. Sempre esbarrando nas dificuldades, organizacionais, orçamentais, de recursos humanos disponíveis.

Hoje, 31.3.17, a UniLúrio inaugurou o seu pólo na Ilha, uma faculdade de ciências sociais e humanas. Continuando a sua política de descentralização sustentada do ensino superior no norte de Moçambique. Está a UniLúrio imensamente de parabéns. E os amantes da Ilha (mesmo este cá tão longe) rejubilam.