O 10 de Junho em Paris

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Bela coisa, esta a de se comemorar o dia de Portugal em Paris. Pois é uma demonstração, altissonante, de que a cidade fustigada e ameaçada pelo terrorismo fascista é (também) o nosso território espiritual, França um verdadeiro país-irmão, e que “estamos juntos”, fortes aliados – e nisso também é um sinal adverso aos “relativistas” de moda, sempre querendo apoucar os vínculos mais estreitos em nome de uma putativa “ética” homogeneizadora, essa que exige que os laços políticos-culturais-afectivos que nos ligam a Atocha, Sablon ou Saint-Denis devem ser iguais aos tidos com qualquer bairro de Bombaim ou Jacarta, o que é uma hipócrita e vácua forma de auto-crítica do percurso “ocidental”.

Mas comemorar o dia nacional no estrangeiro é também forma de se afirmar que aqui é um estado de democracia,  forma de afrontar essa vaga racista, xenófoba, intolerante, uma infecção de soberanite que se vai espalhando, entre as direitas mais abjectas, do malvado Trump às Le Pen, de Farage aos proto-ditadores eslavos. E que entre as esquerdas vem mais assobiada, desde o anti-europeísmo dos neo-comunismos euro-austrais aos requebros populistas das ex-sociais-democracias, como exemplifica a patética “tensão” que António Costa anuncia agora como modo de relacionamento com a UE – como modo de arranjar mais dinheiro para “socializar” a banca privada entregando-a substantivamente à sua elite partidária, como maliciosamente fez o seu antigo líder e “ex”-amigo Sócrates.

Mas esta ida a Paris tem também um sentido interno. O acertado texto de Luis Naves mostra como, de súbito, a situação portuguesa é apresentada ao público como despojada do imenso rol de desgraças bramidas ao longo dos últimos anos – ou seja, como a corporação mediática (imprensa, academia, políticos) manipula a imagem do real. Ora durante anos essa torpe palavra pública repetiu até à exaustão que o ex-PM apelava à emigração (sobre essa aldrabice botei um dia o texto “O Emigrão“). E fazia-o num registo que apresentava o fenómeno como se similar à antiga e desgraçada emigração dos anos 50s e 60s, num miserabilismo demagógico – que foi simbolizado nesta patética canção de Abrunhosa, o cançonetista que sempre soube cavalgar a onda PS, e entretanto recompensado pelo “turbo” à decadente carreira através da escolha para hineiro da selecção da bola que (também) vai agora a França.

Face a esse “desgraçadismo” tão agitado nesses recentes anos, ir agora a uma cidade tão simbólica da emigração portuguesa é assumir uma outra imagem, muito mais realista, da actualidade (e)migrante portuguesa, e despojá-la da demagogia miserabilista que a “esquerda” portuguesa agitou, e de modo tão retrógrado, nos últimos anos.

Por tudo isto esteve, neste passo nada apenas-simbólico, muito bem o actual Presidente da República. A batalha xadrezística com o governo está no princípio, mas esta abertura é de grande estilo. Em breve, de modo que surpreenderá pelo arrojo, o “cavalo” negro, Santos Silva, estocará em resposta. Mas ainda nem sequer houve roques. A ver iremos.

 

 

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